Ao som perplexo do cotidiano humano, persigo caminhos sem direção exata e busco o que eu nem sei se quero encontrar... Pergunto a mim por qual de tantos ideais psicológicos deste mundo tenho lutado e, infelizmente sei que não tenho feito grande coisa... Mas, ando confusa com tudo que me persegue sem saber se estou disposta a fazer o que eles querem... Será que eu sei o que eles querem?
Ao som diversificado do cotidiano insano, vejo imagens e absorvo tudo o que a mim é oferecido, até como se eu não tivesse consciência do que é vida ou do que temos aceitado por tantos anos... Tantas histórias mal contadas e distorcidas contemplam a vida de um ser frágil de inteligência capaz inigualável. Às vezes, presa no mundo solitário, sei que não há proteção, mas para onde fugir hoje em dia?
Aos sons, sejam eles como forem, brindo minhas angústias, minhas dúvidas, minhas dores... Tudo o que foi conquistado pelo homem degenera a cada instante, onde sorrisos ofegantes, fingidos, fazem sua parte em mais um capítulo de uma história reduzida à repetição constante.
Por: Camilla Ribeiro.
15 de Agosto, 2006.
2 Pitaco (S):
Apesar dos horrores que a humanidade fabrica e tem fabricado,é essencial acreditarmos na mudança dos modelos,no ser humano.
Parabéns pelo texto.Um abraço.
O pequeno periquito inclinou a cabeça para o lado, naquele jeito tão particular que as aves têm, quando querem focar toda a atenção num único local.
- O que estás tu a ver, com tanta atenção? – quis saber o amigo esverdeado.
- Estou a olhar para a porta... – respondeu o periquito azul. Já reparaste nela?
O periquito esverdeado olhou na direcção indicada, mas não encontrou nada que lhe retivesse a atenção.
- ... Não vejo nada de especial... aliás, só mesmo tu é que andas sempre a ver se descobres coisas novas... não sei como nunca te cansas...
O periquito azul inclinou ainda mais o pescoço.
- Sou curioso, é só... – justificou-se – e também não percebo porque motivo tu és tão desinteressado... nunca tens perguntas? Nunca ficas curioso?
O periquito esverdeado esboçou um movimento com o bico, vagamente semelhante a um sorriso.
- Eu? Curioso? Para quê?... Por acaso algum dia me faltou o almoço ou o jantar? Nunca. Alguma vez fiquei sem as minhas deliciosas folhas de alface? Nunca. Porque haveria de ficar curioso?
- Podias querer saber o que existe lá fora...
O periquito esverdeado agitou-se, incomodado com a observação.
- Lá fora ? ... Isso do “ Lá fora “ não existe... só tu mesmo é que passas os dias a falar desse “ Lá fora “...
- Claro que existe... só não tenho é provas...
- Claro que não tens provas. Isso do “ Lá fora “ é conversa fiada... Lá fora, é onde vivem os humanos e ponto final. Eles vivem lá fora... e nós vivemos cá dentro.
E, com a asa esverdeada, fez um gesto teatral, apontando para a grade branca da gaiola.
- Mas eu ... eu tenho que experimentar... – murmurou o periquito azulado – eu quero saber, eu preciso mesmo de saber..
O periquito esverdeado abanou a cabeça, em tom reprovador.
- Não sejas tonto... aqui tens tudo o que precisas... comida da melhor qualidade.... uma casota de madeira onde te abrigas do frio e da chuva... uma gaiola limpa todos os dias... e um dia destes, até nos trazem umas moças bonitas, para nos alegrar os dias... que mais queres tu ? Nem te pedem nada em troca...
- Claro que pedem.
- Ora... isso nem é pedir... só querem que cantes assim de vez em quando, para os deixares felizes... e que consigas ser pai de muitas crias... muitas e muitas... isso é só o que eles querem... não me parece demasiado...
O periquito azulado não estava convencido.
- Mas sinto-me preso, aqui...
Ao mesmo tempo que dizia isto, abriu as asas e voou até junto da porta entreaberta da gaiola.
- O que vais tu fazer ? Não sejas louco... – gritou-lhe o periquito esverdeado.
O periquito azulado não lhe prestou atenção. Com um gesto fácil do bico, empurrou a grade branca para cima e passou o corpo esguio para o lado exterior da gaiola.
Do lado de fora, contemplou o colega de cativeiro, que tremia sobre poleiro de madeira.
- Volta,... por favor, volta... vou ficar aqui sózinho... – lamentava-se ele.
- Não posso... preciso de descobrir... o que existe aqui.
- Mas esse mundo é perigoso... de certeza que é muito perigoso...
O periquito azulado ensaiou um pequeno voo em redor da gaiola.
Por um breve instante, o sabor inebriante da liberdade atravessou-lhe as penas coloridas, como um arrepio de frio intenso.
Mas era um frio especial, um frio saboroso, uma lufada de ar mais fresco, mais... nem encontrava palavras para expressar o que estava a sentir naquele preciso momento.
- Se tu pudesses sentir o que eu estou agora a sentir... perceberias – gritou ele, continuando a voar em redor da gaiola.
O periquito esverdeado não percebia.
- Volta, por favor... – gritou de novo
O periquito azulado já não o ouvia. Com um leve bater de asas, ganhou altura, ultrapassou a janela aberta e desapareceu por entre a vegetação do jardim, chilreando freneticamente.
O relógio tocara a sua hora da liberdade...
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